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  1. passar para o outro lado...

    4 de junho de 2012

    "…é a nossa maior inevitabilidade, a nossa única certeza. Se o Destino existe, ela é sem dúvida o nosso destino comum, o único. Assustadora quase sempre, consoladora às vezes, por muito que tente mostrar-nos que é até mais honesta e segura do que a própria vida, não se livra da má fama de Ceifeira que ceifa o que está pronto para ser ceifado e o que ainda, aos nossos olhos, não está. E isso todos nós sentimos como uma enorme injustiça. Mas o que sabemos nós?! Nada. Nada, a não ser que por ela seremos levados, mais cedo ou mais tarde. Já lhe vi os olhos em outros olhos. Já estive perto dela, mais do que uma vez e sei que quando chega aquele momento em que ela nos dá a mão e diz, Vamos que chegou a hora, o medo do desconhecido é inevitável. Não é o medo dela, é o medo do desconhecido. Há certos rostos que se suavizam quase de imediato! Quem sabe se o desconhecido afinal nos é familiar e está apenas esquecido?... O facto é que tratamos muito mal a morte, às vezes pior ainda do que tratamos a vida. Não só evitamos falar dela, como todos os dias fazemos de conta que não existe. Mas estamos sempre prontos a desafiá-la! Desafiamo-la quando entramos no carro; desafiamo-la quando ignoramos os sinais do nosso corpo; desafiamo-la quando atravessamos a estrada; quando entramos na banheira; quando mergulhamos nas ondas… desafiamo-la a toda a hora como se tivéssemos uma necessidade maior de lhe provar que não nos vence, ainda que saibamos que será sempre ela a vencer. Cada dia que se ganha é uma vitória. Talvez por isso nos custe tanto ver vidas tão jovens serem ceifadas. Mas uma coisa é certa – não sabemos o que existe para lá dela. Não sabemos o que está do outro lado. Não sabemos para onde vamos quando nos vamos embora e, não sabemos sequer, se apesar de nos parecer uma monstruosidade, uma enorme injustiça, ela, a morte, não sabe mais do que nós, aquilo que anda a fazer…"

    in Intermitências da Morte

  2. Não tenho casa, não tenho sapatos
    Não tenho dinheiro, não tenho classe
    Não tenho roupa, não tenho suéteres
    Não tenho fé, não tenho barba
    Não tenho mente Não tenho mãe, não tenho cultura
    Não tenho amigos, não tenho escolaridade
    Não tenho nome, não tenho amor
    Não tenho passagem, não tenho telemóvel
    Não tenho Deus
    O que eu tenho? Porque eu estou vivo? Sim, o que eu tenho? Ninguém pode se livrar disso
    Tenho meu cabelo, tenho a minha cabeça
    Tenho o meu cérebro, tenho as minhas orelhas
    Tenho os meus olhos, tenho o meu nariz
    Tenho a minha boca, tenho meu sorriso
    Tenho a minha língua, tenho o meu queixo
    Tenho o meu pescoço, tenho os meus peitos
    Tenho o meu coração, tenho a minha alma
    Tenho as minhas costas, tenho o meu sexo
    Tenho os meus braços, tenho as minhas mãos
    Tenho os meus dedos, tenho as minhas pernas
    Tenho os meus pés, tenho os meus dedos dos pés
    Tenho o meu fígado, tenho o meu sangue
    Tenho a vida, tenho a minha liberdade
    Tenho uma dor de cabeça e uma dor de dente
    Momentos maus como tu
    Tenho a vida, vou conservar isso

  3. Ai a vida amor...

    22 de agosto de 2011

    A vida é uma eterna ciranda e estamos sempre a brincar, a fingir, a dissimular, enganar e tudo mais que possa existir nessas pequenas e ofensivas palavras que nos rodeiam como parasitas abomináveis.

    "A vida é um uma cena fingida", diria o mais sincero dos poetas. E talvez eu realmente acredite nisso. Entretanto, há algo mais diabólico por trás dessa farsa, desse grande teatro que é a vida. Não sei definitivamente o que é. Só sei que é. E pronto.

    Estamos o tempo todo (falo agora de nós, seres humanos, meros mortais, e não mais da vida em específico) a tentar provar aos outros que somos pessoas que na verdade não somos. Que fazemos coisas que na verdade não fazemos. Que sentimos - solidariedade, afecto, não importa o nome – sensações que na verdade não sentimos. Somos máscaras, rótulos, estereótipos. E a verdade onde fica no meio disto tudo? E os nossos sentimentos mais profundos? Para onde vão? Esses, na maioria das vezes, ficam escondidos em gavetas empoeiradas, dividindo espaço com toneladas de papéis sem sentido, acumulados entre tristezas e outras coisas das mais diversas e cruéis.

    Se eu queria voltar atrás? Entrar numa máquina do tempo que me permitisse reescrever a minha história? Lógico! Quem não gostaria? Achas que eu acredito nesse blá-blá mesquinho quando algumas vezes me dizem “não mudaria nada do meu passado”? Tretas. Todo a gente mudaria. A prova disso é a enxurrada de modificações estéticas que se transformou a nossa sociedade, essa aldeia de mutilados, transformados, adaptados, que muda tudo que incomode. E, às vezes, esse incómodo surge e desaparece num prazo tão curto que nem dá tempo de cronometrar no relógio. Toda a gente quer mudar algo e quem não pode, gostaria de o fazer...

    Mudar tudo.

    De casa, de emprego, de carro, de vida, de namorado(a), noivo(a), marido(esposa), os gostos, as glórias, ufa! Chega... Eu poderia escrever uma bíblia inteira só com o que o ser humano desejaria mudar...E acho que ainda iriam faltar páginas...

    É culpa da vida esse desejo de mudança?
    É nossa culpa?
    De quem é a culpa?
    Culpa? Estás ai?

    Enquanto procuro as respostas, life goes on...

    Nem me digno a perguntar se tu, que estás ai desse lado, gostavas de mudar alguma coisa porque já sei qual é a resposta...

  4. Era tipo Benjamin Button...

    21 de março de 2011

    "Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente. Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo. E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer. Por fim, passo nove meses flutuando num “spa” de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois – “Voilà!” – desapareço num orgasmo."

    Woody Allen

    Na minha opinião, faria muito mais sentido...


  5. uma força...

    5 de março de 2011


    Esta música faz parte do Mixtape dos Orelha Negra e é cantada pelo MC Valete...
    Eu vou se sincero, os MC's, os vulgos rappers, nunca me prenderam muito a atenção porque de facto eu nunca tinha ouvido nenhum...Tinha, mais uma vez (tal como tinha com o Sam The Kid), que estes tipos falavam de coisas do tipo "a vida nas ruas é lixada por isso é que matamos e roubamos" cenas à americana e com um redondo 0 em conteúdo...Enganei-me, mais uma vez. Valete, o maior MC português, é um Fernando Pessoa dos tempos modernos...Ele escreve para todos...Escreve para todos aqueles que se sentem angustiados com a sua existência. Escreve para quem continua cheio de questões na sua cabeça. Escreve para os que realmente sofrem com as desigualdades...Não cai em caprichos parvos e idiotas...É um contador de histórias, histórias verdadeiras...Esta música é um verdadeiro tributo aos rappers portugueses que são totalmente discriminados no panorama musical português...É mais bonito gostar de certas bandas norte-americanas que tocam nos subúrbios de Nova York...Dá um ar intelectual...Quando temos alguém que faz letras que encaixam como uma chave na sua fechadura (não foi a melhor metáfora, pois não?)...
    Este som foi uma injecção de esperança para mim...Porque apesar de todas as dificuldades, vale a pena lutar. Porque se tivermos monstros na cabeça, eles devem sair e deixar-nos caminhar...


    PS: Eu percebo que este estilo de música não seja apreciado pelas grandes massas, eu próprio não sou um grande fã, apenas estou a tirar o chapéu a estes senhores que sabem verdadeiramente o que fazem e que cada palavra sua é um murro no estômago dos demais mortais. Por isso um grande obrigado a todos os MC's a.k.a Rappers nacionais.